Passando pela voz passiva…

Quando eu tenho que ensinar voz passiva em japonês, sempre começo por aquilo que é mais fácil: pelos pontos mais evidentes que possam ter paralelo com o português. Frase na voz ativa, sujeito, objeto… Troca um pelo outro (objeto vira sujeito, sujeto vira agente da passiva), muda a forma do verbo… Ja-jan! Pronto, tudo sob controle (pelo menos aparentemente, nos primeiros passos). Assim:

友達パーティーに招待しました

Tomodachi wa watashi wo paatii ni shôtai shimashita.

“Um amigo me convidou para uma festa.”

Vira

友達パーティーに招待されました

Watashi wa tomodachi ni paatii ni shôtai saremashita.

“Eu fui convidado para uma festa por um amigo.”

 

O agente da passiva não é obrigatório, claro:

Fonte da imagem: https://blogs.yahoo.co.jp/dreamdandy1/38200313.html

 

出るくいは打たれる。

Deru kui wa utareru.

Ao pé da letra, “prego que sai é batido.” (na verdade, fica muito melhor “prego que se destaca leva martelada”, até porque esta frase é um provérbio japonês muito conhecido)

 

Quanto à forma do verbo, suru se torna sareru (vide o exemplo); verbos do grupo 1 recebem a desinência -reru; verbos do grupo 2 recebem a desinência -rareru. Essa tabelinha pode ser encontrada em qualquer livro didático de japonês. Vai na fé, repetindo com exercícios, que daqui a pouco já está no automático.

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Tem tabelas melhores e mais completas que essa, claro. Mas a minha preocupação de verdade não é com a morfologia dos verbos: é com os contextos em que, para traduzir a frase, não adianta comparar com o português, porque não existe uma correspondência (o que acontece em boa parte dos casos, diga-se de passagem). Um deles é o da chamada “voz passiva de prejuízo” – eu relutei em aceitar essa nomenclatura no início, mas ela é autoexplicativa, então lá vai:

 

両親は私の日記を読みました。

Ryôshin wa watashi no nikki wo yomimashita.

Meus pais leram meu diário.

私は両親に日記を読まれました。

Watashi wa ryôshin ni nikki wo yomaremashita.

(E agora, como a gente traduz?) “Eu tive o diário lido pelos meus pais”.  (mas não foi favor, foi o maior vacilo, fiquei chateado/a porque descobriram meu crush…)

 

Molezinha? Será? Vamos ver essas aqui:

雨に降られました。

Ame ni furaremashita.

Como uma vez meus alunos traduziram de brincadeira, “fui chovido pela chuva” (=P). Sem chance! “A chuva me surpreendeu”, “Fui apanhado/molhado pela chuva”, ou algo parecido – nesse último a ideia de passividade ainda permanece.

雨に降られる
Fonte da imagem: http://nihongonoe.com/main-category/sentence-pattern/受身形/

子供に泣かれました。

Kodomo ni nakaremashita.

“Fui chorado pela criança”?? Pior ainda! O jeito é deixar na voz ativa, mesmo, talvez acrescentando alguma explicação. “A criança chorou para mim”, “A criança me viu e chorou”… Ainda não está satisfatório, então aproveita e se livra da culpa de ter feito a criança chorar e traduz só por “A criança chorou”. (=D)

他の学生たちに笑われました。

Hoka no gakuseitachi ni warawaremashita.

“Os outros alunos riram de mim.” (e não “eu fui rido pelos outros alunos”, porque isso não existe em português – o verbo “rir” não tem voz passiva, como “chover” também não tem)

 

De qualquer maneira, nestes exemplos a gente percebe que há um incômodo, um “prejuízo” ao sujeito – daí o nome de “voz passiva de prejuízo”. Vai além da mera explicação de quem-age-e-quem-sofre-a-ação. É mais uma situação que é até fácil de entender, no entanto é difícil de traduzir e chatinha de explicar.

É nessa que o sujeito (tradutor) “sofre” de verdade!

Até a próxima!

またね!

 

 

 

 

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110 anos da imigração japonesa no Brasil – o Centro de Migração e Interação Cultural de Kobe

O dia 18 de junho de 1908 é o marco do início da imigração japonesa no Brasil, sendo a data da chegada do navio Kasato Maru ao Porto de Santos. A gente sempre fala de “imigração japonesa” como uma coisa só, um processo único. No entanto, me parece interessante pensar em “imigrações japonesas”, levando em conta que diferentes grupos se instalaram em diferentes localidades e tiveram, logicamente, cada um a sua história e desenvolvimento, embora tenham atravessado dificuldades semelhantes (as perseguições no período da guerra, por exemplo). No Amazonas, os japoneses contribuíram com, entre outras coisas, a aclimatação da juta; no Pará, com a pimenta-do-reino; no sul e no sudeste, trabalharam nas lavouras de café – isso apenas para mencionar os estágios iniciais de imigração.

Foi do porto de Kobe que partiu o Kasato Maru e de onde partiram tantos outros navios. Em Kobe existe hoje o Centro de Migração e Interação Cultural de Kobe (Kaigai Ijû to Bunka no Kôryû Sentaa), no prédio que antes servia de hospedagem para japoneses que vinham de todas as partes do Japão a fim de embarcar em um navio que os levasse a terras cheias de promessas. (Bem, o nome completo seria “Centro para a Migração Além-mar e Interação Cultural de Kobe, mas eu acho esse “além-mar” muito feio, rs…)

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(Arquivo pessoal)
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(Arquivo pessoal)

Como está escrito na placa logo na chegada, hoje é um “museu que conta as histórias das pessoas que atravessaram o mar a partir do porto de Kobe”. E haja história. Por mais que sejam histórias de dificuldades, de luta e perseverança, a imagem de cooperação mútua (como o quadro abaixo, em exposição permanente) é a que prevalece no centro.

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(Arquivo pessoal)

O prédio foi construído para comportar 600 leitos. Seu desenho foi inspirado no interior de um navio, diz-se que para os hóspedes se acostumarem com o ambiente, uma vez que teriam de ficar longos dias dentro de um. Alguns detalhes como canos e barras de ferro mostram bem como é:

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(Arquivo pessoal)

Hoje o centro não apenas abriga uma exposição permanente sobre a história da migração mas também oferece aulas de língua japonesa a famílias de brasileiros – descendentes de japoneses em sua maioria, mas não exclusivamente – que vão morar no Japão. Oferece ainda aulas de português para japoneses, entre outros cursos e atividades, sempre promovendo a interação cultural. Aliás, olhem que coisa linda, o nosso ipê amarelo, plantado à frente do prédio, florescendo mais cedo este ano:

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(Fonte: http://www.kobe-center.jp/index.html)

Que as palavras “interação” e “cooperação” continuem presentes nos próximos anos de história!

書初め Kakizome: começar o ano escrevendo bonito!

Há um provérbio japonês antigo que diz:  「書は人なり」 sho wa hito nari, “a escrita é/define a pessoa”. Quem tem letra feia vai logo torcer o nariz – ahá! Ora, se não… Mas esta relação (presumida, embora discutível) entre personalidade e escrita só começa a se desenhar a partir do período Kamakura, de acordo com o blog do Museu Nacional de Tóquio. Na mesma postagem, o autor menciona a obra 「新猿楽記」Shinsaru Gakuki (ou Shinsaru Gôki ), escrita em meados do período Heian, cujos personagens são identificados pelo que pode ser considerado o seu ofício, a sua profissão. Entre eles está o calígrafo Tarô, cujo mérito está em escrever em variados estilos, sendo conhecedor de língua clássica, dominando tanto kanji quanto kana. Meu herói! Pois é, tudo ligado ao talento desenvolvido graças ao estudo, ao exercício, nada tendo a ver com o resultado da conjugação de traços de personalidade.

Como parte das tradições de Ano Novo, geralmente no segundo dia de janeiro, acontece o 「書初め」 Kakizome (de「書く」 kaku, “escrever” + 「初める」 someru, “começar”),  cerimônia – às vezes são organizadas até competições! – em que as pessoas escrevem algo de inspiração ou, com muita frequência, resoluções para o ano que começa. Pode ser um poema, uma citação, mas também pode ser algo bem simples, como uma palavra ou mesmo um único kanji.

 

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Fonte da imagem: http://japanoutpost.org.uk/page/2/

Qual seria a sua palavra/o seu kanji para começar 2018?

Eu fiquei pensando em algumas. No entanto, ainda “no raso”, sempre aparecem as mesmas de sempre: 「平和」heiwa “harmonia”, 「健康」kenkô “saúde”, 「希望」kibô “esperança”, 「幸福」kôfuku “felicidade”… Tudo isso é ótimo, claro, mas acho que vou recomeçar a lista:

「正義」seigi “justiça”

「自制」jisei “autocontrole”

「回復力」kaifukuryoku “resiliência”, “capacidade de recuperação”

「洞察力」dôsatsuryoku “discernimento” – essa, eu peço SEMPRE!

Que tal aumentar essa lista? Coloque a sua sugestão nos comentários! Que tenhamos todos um maravilhoso 2018!

 

良いお年を!