Sô omottatte…

Eu estava esperando o trem quando este cartaz chamou a minha atenção:

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Fonte: Arquivo pessoal

O que me prendeu antes de mais nada foi o kanji, que eu não conhecia. Depois foi aquele passageiro querendo usar uma cobra (!!!!!) para interromper o fechamento automático da porta – eu ri, juro. Mas também alguém riu de mim quando eu fotografei a imagem. Estou desculpada: sou gaikokujin. Quando cheguei ao meu quarto, fui pesquisar o kanji e descobri que ele é até bastante comum. Olhem só:

んだって、ムリ!

Hasandatte, muri!

“Mesmo que você coloque alguma coisa no meio, não adianta!”

Uma frasezinha de nada, e vira isso tudo na tradução? Pois é: o verbo hasamu quer dizer “colocar algo no meio” (como em パンにハムを挟む pan ni hamu o hasamu – “colocar o presunto entre as fatias de pão”). Eu até fiquei pensando depois sobre isso, porque eu só o conhecia com o significado de “cortar com tesoura”, e acho que tem mesmo tudo a ver, já que a tesoura passa no meio do papel ou do tecido. Enfim, solucionado isto, o que passou a me intrigar foi aquele datte. Eu conhecia este -tte apenas como uma maneira informal de -to iu koto ou -to wa. Na frase da imagem, porém, essa estrutura está sendo usada com valor concessivo (“mesmo que…”, “ainda que…”). Vale a pena comparar com a frase em letras menores um pouco mais abaixo, ao lado do triângulo amarelo:

モノや身体が挟まれてもドアは自動で開きません。

Mono ya shintai ga hasamaretemo doa wa jidô de hirakimasen.

“Ainda que você coloque um objeto ou o próprio corpo, a porta não vai se abrir automaticamente.”

 

O valor concessivo expresso com -temo é comum nos livros didáticos e, mais cedo ou mais tarde, aparece para os alunos de japonês. Já o -tte com valor concessivo, bem… Eu o aprendi por acaso. Mas isso não quer dizer que ele seja pouco comum. (Peraí: hirakimasu? Ou akimasu? vou marcar aqui para pesquisar depois.) Uma nova pesquisa na internet acabou trazendo outros exemplos de frases que o utilizam, como o chavão usado pelo ator e comediante Enari Kazuki (embora a frase não seja originalmente dele, pois ele estava imitando outra pessoa, acabou ficando marcada como se fosse do seu personagem):

そんなこと言ったってしょうがないじゃないか
Fonte da imagem: https://moto-neta.com/entertainment/sonnakotoittatte/

そんなこと言ったってしょうがないじゃないか

Sonna koto ittatte shô ga nai ja nai ka

“Mesmo que diga isto, não há nada que se possa fazer, não é mesmo?”

Sobre a expressão shô ga nai ja nai ka, a tradução ficou muito literal. O ja nai ka geralmente é utilizado para atenuar a afirmação do falante, buscando uma interação com o ouvinte e não deixando esta afirmação tão categórica, então nem sempre é traduzido. Ficaria só “Mesmo que diga isto, não há nada que se possa fazer”. Isso já dá uma outra postagem… O que observo é que este uso do -tte é comum com expressões como しょうがない shô ga nai, 無理です muri desu, 無駄です muda desu – que possuem mais ou menos o mesmo significado (“não há nada a fazer”, “não adianta”, “não dá para imaginar”, “é inútil” etc). Também é comum aparecer um verbo na forma potencial na negativa (para expressar que não se pode fazer alguma coisa):

そんなこと言ったって、今から戻れないよ。

Sonna koto ittatte, ima kara modorenai yo.

Mesmo você dizendo isto, agora não dá para voltar atrás.

ここから呼んだって、聞こえないだろう。

Koko kara yondatte, kikoenai darô.

Mesmo chamando daqui, parece que não dá para ouvir.

(Exemplos tirados do livro “A handbook of Japanese grammar patterns for teachers and learners”)

Então… A dúvida começou com o significado de um kanji, levou a uma construção de valor concessivo, catou outra dúvida de leitura de outro kanji, foi parar  no ja nai ka. Eu fotografei o cartaz pensando que ia pesquisar só um ideograma, mas não pude parar ali. そう思ったって、止まれなかった。Sô omottatte, tomarenakatta. Estudar japonês é assim mesmo.

ではまたね!

Dewa mata ne!

 

 

 

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Passando pela voz passiva…

Quando eu tenho que ensinar voz passiva em japonês, sempre começo por aquilo que é mais fácil: pelos pontos mais evidentes que possam ter paralelo com o português. Frase na voz ativa, sujeito, objeto… Troca um pelo outro (objeto vira sujeito, sujeto vira agente da passiva), muda a forma do verbo… Ja-jan! Pronto, tudo sob controle (pelo menos aparentemente, nos primeiros passos). Assim:

友達パーティーに招待しました

Tomodachi wa watashi wo paatii ni shôtai shimashita.

“Um amigo me convidou para uma festa.”

Vira

友達パーティーに招待されました

Watashi wa tomodachi ni paatii ni shôtai saremashita.

“Eu fui convidado para uma festa por um amigo.”

 

O agente da passiva não é obrigatório, claro:

Fonte da imagem: https://blogs.yahoo.co.jp/dreamdandy1/38200313.html

 

出るくいは打たれる。

Deru kui wa utareru.

Ao pé da letra, “prego que sai é batido.” (na verdade, fica muito melhor “prego que se destaca leva martelada”, até porque esta frase é um provérbio japonês muito conhecido)

 

Quanto à forma do verbo, suru se torna sareru (vide o exemplo); verbos do grupo 1 recebem a desinência -reru; verbos do grupo 2 recebem a desinência -rareru. Essa tabelinha pode ser encontrada em qualquer livro didático de japonês. Vai na fé, repetindo com exercícios, que daqui a pouco já está no automático.

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Tem tabelas melhores e mais completas que essa, claro. Mas a minha preocupação de verdade não é com a morfologia dos verbos: é com os contextos em que, para traduzir a frase, não adianta comparar com o português, porque não existe uma correspondência (o que acontece em boa parte dos casos, diga-se de passagem). Um deles é o da chamada “voz passiva de prejuízo” – eu relutei em aceitar essa nomenclatura no início, mas ela é autoexplicativa, então lá vai:

 

両親は私の日記を読みました。

Ryôshin wa watashi no nikki wo yomimashita.

Meus pais leram meu diário.

私は両親に日記を読まれました。

Watashi wa ryôshin ni nikki wo yomaremashita.

(E agora, como a gente traduz?) “Eu tive o diário lido pelos meus pais”.  (mas não foi favor, foi o maior vacilo, fiquei chateado/a porque descobriram meu crush…)

 

Molezinha? Será? Vamos ver essas aqui:

雨に降られました。

Ame ni furaremashita.

Como uma vez meus alunos traduziram de brincadeira, “fui chovido pela chuva” (=P). Sem chance! “A chuva me surpreendeu”, “Fui apanhado/molhado pela chuva”, ou algo parecido – nesse último a ideia de passividade ainda permanece.

雨に降られる
Fonte da imagem: http://nihongonoe.com/main-category/sentence-pattern/受身形/

子供に泣かれました。

Kodomo ni nakaremashita.

“Fui chorado pela criança”?? Pior ainda! O jeito é deixar na voz ativa, mesmo, talvez acrescentando alguma explicação. “A criança chorou para mim”, “A criança me viu e chorou”… Ainda não está satisfatório, então aproveita e se livra da culpa de ter feito a criança chorar e traduz só por “A criança chorou”. (=D)

他の学生たちに笑われました。

Hoka no gakuseitachi ni warawaremashita.

“Os outros alunos riram de mim.” (e não “eu fui rido pelos outros alunos”, porque isso não existe em português – o verbo “rir” não tem voz passiva, como “chover” também não tem)

 

De qualquer maneira, nestes exemplos a gente percebe que há um incômodo, um “prejuízo” ao sujeito – daí o nome de “voz passiva de prejuízo”. Vai além da mera explicação de quem-age-e-quem-sofre-a-ação. É mais uma situação que é até fácil de entender, no entanto é difícil de traduzir e chatinha de explicar.

É nessa que o sujeito (tradutor) “sofre” de verdade!

Até a próxima!

またね!

 

 

 

 

110 anos da imigração japonesa no Brasil – o Centro de Migração e Interação Cultural de Kobe

O dia 18 de junho de 1908 é o marco do início da imigração japonesa no Brasil, sendo a data da chegada do navio Kasato Maru ao Porto de Santos. A gente sempre fala de “imigração japonesa” como uma coisa só, um processo único. No entanto, me parece interessante pensar em “imigrações japonesas”, levando em conta que diferentes grupos se instalaram em diferentes localidades e tiveram, logicamente, cada um a sua história e desenvolvimento, embora tenham atravessado dificuldades semelhantes (as perseguições no período da guerra, por exemplo). No Amazonas, os japoneses contribuíram com, entre outras coisas, a aclimatação da juta; no Pará, com a pimenta-do-reino; no sul e no sudeste, trabalharam nas lavouras de café – isso apenas para mencionar os estágios iniciais de imigração.

Foi do porto de Kobe que partiu o Kasato Maru e de onde partiram tantos outros navios. Em Kobe existe hoje o Centro de Migração e Interação Cultural de Kobe (Kaigai Ijû to Bunka no Kôryû Sentaa), no prédio que antes servia de hospedagem para japoneses que vinham de todas as partes do Japão a fim de embarcar em um navio que os levasse a terras cheias de promessas. (Bem, o nome completo seria “Centro para a Migração Além-mar e Interação Cultural de Kobe, mas eu acho esse “além-mar” muito feio, rs…)

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(Arquivo pessoal)
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(Arquivo pessoal)

Como está escrito na placa logo na chegada, hoje é um “museu que conta as histórias das pessoas que atravessaram o mar a partir do porto de Kobe”. E haja história. Por mais que sejam histórias de dificuldades, de luta e perseverança, a imagem de cooperação mútua (como o quadro abaixo, em exposição permanente) é a que prevalece no centro.

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(Arquivo pessoal)

O prédio foi construído para comportar 600 leitos. Seu desenho foi inspirado no interior de um navio, diz-se que para os hóspedes se acostumarem com o ambiente, uma vez que teriam de ficar longos dias dentro de um. Alguns detalhes como canos e barras de ferro mostram bem como é:

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(Arquivo pessoal)

Hoje o centro não apenas abriga uma exposição permanente sobre a história da migração mas também oferece aulas de língua japonesa a famílias de brasileiros – descendentes de japoneses em sua maioria, mas não exclusivamente – que vão morar no Japão. Oferece ainda aulas de português para japoneses, entre outros cursos e atividades, sempre promovendo a interação cultural. Aliás, olhem que coisa linda, o nosso ipê amarelo, plantado à frente do prédio, florescendo mais cedo este ano:

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(Fonte: http://www.kobe-center.jp/index.html)

Que as palavras “interação” e “cooperação” continuem presentes nos próximos anos de história!