Feliz Dia do Tradutor!

Eu devia ter começado este post escrevendo: “Feliz Dia do ‘quê que tá escrito aqui?'”. Já aconteceu comigo – e, se você estuda japonês há algum tempo, você com certeza já teve experiência semelhante – de alguém trazer coisa do tipo manual de apetrecho contrabandeado, escrito em chinês, e me perguntar o que está escrito ali. Não, não queria saber só uma frase. Era uma pergunta meio sem propósito mesmo, porque a pessoa sabia como o aparelhinho funcionava. Mas esperava uma explicação geral resumida e também pormenorizada com comentários etimológicos, enfim, talvez a pessoa não soubesse exatamente o que queria perguntar – e eu também não ia conseguir responder, claro.

– Isso não é japonês, é chinês. Eu sou professora de japonês.

– E não é a mesma coisa?

Quem da nossa área nunca ouviu isso? Se ainda não, um dia vai. E, se não tiver nenhum traço físico que denuncie alguma ascendência japonesa, pode se preparar para aquela expressão de desconfiança do interlocutor e talvez algum comentário jocoso.

A tarefa de nenhum tradutor é fácil. Estou falando de tradutor mesmo, não de quem esporadicamente resolve pegar um dicionário e traduzir uma coisinha ou outra. Até os professores, para quem o exercício da tradução acaba fazendo parte da profissão no ensino da língua e da literatura, não podem ser substitutos dos tradutores, que possuem, junto com a experiência, estudo e ferramentas específicos para desempenhar esta atividade. E como se ouve: “essa tradução está errrrrrrrrada!”, de gente que se irrita simplesmente porque a tradução não está “ao pé da letra” (acreditem, nem sempre o literal é o correto – vide as expressões idiomáticas).

Em se tratando de tradução japonês-português, então… Se for texto literário, nossa! Quando aparece no texto alguma palavra que designe algum objeto específico da cultura japonesa, mas que não encontra referencial semelhante no português, aí acabou-se: dá-lhe nota de rodapé!

O que é mais difícil de traduzir no japonês? (Vejam que pergunto “traduzir”, não “entender”.) Tem muita coisa, mas algumas são bem comuns e temos que lidar com elas com mais frequência. Levantamos algumas só para ilustrar.

  1. Linguagem honorífica

Quem tem medo de keigo? Dá para traduzir, não dá? Talvez eu esteja exagerando. É que me incomoda muito perder a nuance do keigo na tradução. E os pronomes que em si denotam nível hierárquico diferente? O que a gente faz com eles?  O exemplo mais badalado que me vem à mente agora é o do romance “Eu sou um gato”,de Natsume Sôseki, que no original em japonês é Wagahai wa neko de aru (wagahai significa “eu”, mas um “eu” utilizado somente por autoridades muito importantes, o que faz todo sentido no contexto, em se tratando do gato do livro, o dono da história, narrador onisciente poderoso lacrador soberano).

2.Onomatopeias

Muito frequentes na língua japonesa, as onomatopeias são um desafio. Quem trabalha traduzindo mangá que o diga! Mas se engana quem pensa que elas são um traço de informalidade. No próprio romance Wagahai wa neko de aru, que mencionamos há pouco, há duas onomatopeias em suas primeiras linhas. 「何でも薄暗いじめじめした所でニャーニャー泣いていた事だけは記憶している。」Nandemo usugurai jimejime shita tokoro de nyaanyaa naite ita koto dake wa kioku shite iru. “Recordo-me somente de estar miando em um local úmido e pegajoso.”

É possível encontrar onomatopeias onde menos se espera, de tão comuns que elas são:

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くるくるバス kurukuru basu – “ônibus circular” – kurukuru referindo-se à ideia de girar, dar voltas, retornando sempre ao mesmo ponto.

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ほかほかごはん hokahoka gohan – “arroz quentinho” – como aquele arroz que acaba de ficar pronto (imagine como isso é prático, comprado nessas máquinas de venda automáticas).

3. Regionalismos

Isso é realmente complicado, e não se restringe à tradução do japonês, é claro. Você consegue entender essa placa?

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ひったくり撲滅!! hitakkuri bokumetsu!! Erradição dos assaltos!!

きいつけやー! Kii tsuke yaa! (Ki o tsukete ne!) Tome cuidado!

あんたのことやでそのバッグ!Anta no koto ya de sono baggu! (Anata no koto desu yo sono baggu) Essa bolsa pertence a você!

Quem conhece o dialeto de Kansai nem precisou de legenda! Pois é. Mas imagine ter que traduzir um texto cheio de regionalismos dando conta de marcá-los também em português…

Muitos outros exemplos poderiam ser citados aqui. Compartilhe algum nos comentários! Afinal, o blog é para ser um bate-papo.

Dando os parabéns a todos os tradutores pelo dia de hoje, especialmente aos tradutores japonês-português, uma última imagem (que mostra como é importante buscar a ajuda de  um profissional):

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横断禁止 oudan kinshi – era para ser “no crossing”… “Proibido cruzar/atravessar”.

ではまたね! Até a próxima!

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É ou não é convidativo?

Em qualquer área pública do Japão, é muito comum encontrarmos placas variadas, com recomendações tais como não jogar lixo no chão, não fazer barulho, não alimentar os pássaros,  não fazer isso, não fazer aquilo (um dos posts anteriores mostra alguns exemplos). O blog Muito Japão, do meu colega Julio Cesar Caruso, mostra placas e também cartazes muito interessantes. “Ah, mas esse tipo de placa existe em qualquer lugar!” Talvez (olhem que tem umas que são bem peculiares), mas tenho a impressão de que, mesmo as suas recomendações sendo óbvias (a maioria delas colocadas ali pelo bem-estar da coletividade), geralmente as pessoas as respeitam sem necessidade mesmo de lê-las. Mas elas estão lá (não venham me dizer que é por causa dos estrangeiros: essa aí de baixo nem tem legenda em inglês!).

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山の緑を火災から守ろう yama no midori wo kasai kara mamorô = Vamos proteger o verde da montaha dos incêndios!

(たばこのポイ捨てをやめよう tabako no poisute wo yameyô = Vamos parar de jogar guimba de cigarro no chão!)

Esta placa aí de cima está na área do templo Fushimi Inari, em Quioto (o templo fica no pé da montanha Inari, daí o nome). Os verbos mamorô yameyô estão na chamada forma volitiva, aquela que, explicando a partir da etimologia do termo, expressa a vontade do falante.  Aí os alunos perguntam: se expressa a vontade, por que a tradução é “vamos fazer (alguma coisa)” e não “quero/desejo fazer (alguma coisa)”? Faz sentido. É por isso que algumas pessoas costumam chamar esta forma de convidativa.

Então a terminologia está errada? Calma aí. Mamorô e yameyô, em outro contexto, também poderiam ser traduzidos como “vou/quero proteger” e “vou/quero parar”, demonstrando a intenção do falante em praticar a ação – se vai ou não praticar de verdade, aí é outra história. Vejam só:

私は締め切りを守ろうとしています。Watashi wa shimekiri wo mamorô to shite imasu. Decidi que vou observar/respeitar o prazo.  (Uma decisão que marca uma intenção, um desejo)

たばこをやめようかなと思っています。Tabako wo yameyô ka na to omotte imasu. Estou pensando se vou parar de fumar. (Uma reflexão que se volta para a confirmação ou não de um desejo – será mesmo que eu quero parar de fumar?)

Os dois exemplos anteriores se referem a contextos individuais. As placas, porém, apelam ao coletivo – razão pela qual essa “vontade” ou “intenção” é entendida como compartilhada entre todos. Daí a tradução “vamos fazer (tal coisa)”. As fotos abaixo, tiradas no Parque Ikedagawa (Kobe) durante um evento escolar no verão, mostram cartazes feitos pelos alunos com uma série de “convites” – que também podem ser entendidos como exortações:

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ポイ捨てやめよう poi sute yameyô = Vamos parar de jogar guimba de cigarro no chão!

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分別しよう! bunbetsu shiyô = Vamos separar o lixo!

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外で遊ぼう soto de asobô = Vamos brincar lá fora!

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ゆずりあおう yuzuri aô =  Vamos ceder a vez!

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交通ルールを守ろう! kôtsû rûru wo mamorô = Vamos respeitar as regras de trânsito!

Para saber como conjugar estas formas verbais, o site do curso de Japonês da NHK dá uma explicação bem prática. Agora, atenção: não confundir com a forma imperativa (por exemplo, mamore e yamerô), que, apesar de semelhante na forma, dá um tom muito mais pesado ao conteúdo. E, embora o convidativo seja mais ameno e tenha um tom persuasivo, em contextos como o dessas placas ele vale como algo que deve mesmo ser feito – ou seja, vale como um convite que não pode ser recusado =D. O último exemplo mostra bem isso: regras de trânsito são regras e não se pode escolher entre segui-las ou não! Fazer o que se deve fica então mais “convidativo”.

Por fim, deixo aqui um convite para vocês:

熱心に日本語を勉強しよう! nesshin ni nihongo wo benkyô shiyô! Vamos estudar japonês com entusiasmo!

頑張ろう! Ganbarô! Vamos nos esforçar!

Lembrem-se: não vale recusar!

Até a próxima!

 

 

Um espaço para aprender – e criar – kanji

Eu comecei a estudar japonês por causa dos ideogramas (kanji). Eu amo kanji. Também amo museus. Então, quando eu soube que foi inaugurado o 漢字ミュージアム (Museu do Kanji) em Quioto, no Japão, eu quase surtei! Fiquei ansiosa para conhecê-lo! Aproveitei que ia participar de um evento acadêmico em Kobe, que fica a cerca de uma hora e vinte minutos de distância (de trem), e, como no primeiro dia de congresso só haveria uma cerimônia de abertura à noite, aproveitei o dia para dar uma “chegada” lá. Valeu a pena!DSCN0607

Ele me pareceu bem moderno e discreto. Ah, também estava cheio de crianças. Não me refiro a grupos escolares, não: eram mães/avós/tias acompanhando os pequenos em plena quinta-feira de muito movimento. Muitos estrangeiros do lado de fora – afinal de contas, o museu fica em um dos principais pontos de interesse turístico em Quioto – e a “diferentona” aqui parecia mais uma das crianças.  Por que é que elas estavam tão agitadas? Depois eu descobri o motivo.

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O museu é totalmente interativo! Nesta mesa, por exemplo, você toca o ideograma e ele se desloca até a lápide, para o sobrepor à imagem que corresponde a sua origem. Muito legal!

Bem na entrada, fica exposto também o kanji do ano anterior, anunciado pela Associação Japonesa de Proficiência em Kanji (日本漢字能力検定協会 Nihon Kanji Nôryoku Kentei Kyôkai). Escrevemos sobre o kanji de 2014 em um post anterior. Nas laterais, os kanji escolhidos nos outros anos (à esquerda de quem observa)  e os vinte mais votados do ano anterior (à direita).

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Além de brincadeiras, testes e panfletinhos para completar – tem para todas as idades e níveis de proficiência, eu garanto! – há um espaço muito interessante para os kanji criados ( sim, CRIADOS!) pelos visitantes. Olhem só os escolhidos para exposição:

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Eu amei alguns em especial: o kanji para デート deeto (“namorar”, “ter um encontro”), que tem duas vezes o kanji de 手 te (“mão”),  como se fossem mãos dadas, e o de メリーゴーランド meriigoorando (“carrossel”), que tem vários 馬 uma (“cavalo”) em volta de 回 kai/mawaru (“girar”). E tem mais:

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Olhem só esse: alguém criou um kanji para アイドル aidoru (“ídolo”, “celebridade”) com 愛 ai (“amor”) e $ (que casa bem com a leitura doru, que é “dólar”)! Que criatividade, não é? E quem fez um para おべんとう obentô (“marmita”) também colocou o kanji de “amor”, só que com 飠 shokuhen, o radical de “comer”! É interessante, mas tudo não passa de um exercício. Nenhum deles vira oficial – tudo bem, a gente aceita ter que limitar nossa aprendizagem aos 2.136 da lista de jôyôkanji, não é? Das palavras de que falamos, deeto, meriigoorando aidoru são estrangeirismos, mas a palavra obentô, por exemplo, é formada por kanji que já existem: お弁当.

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Para finalizar: olhem que lindo aquele de さくらんぼ sakuranbo (“cereja”)! É mesmo o desenho de um galhinho com duas cerejas. E não são assim os primeiros kanji que aprendemos? 山 Yama é o desenho de uma montanha… 人 Hito é a imagem de uma pessoa… Em 川 kawa, um rio… Conforme vamos seguindo nos estudos, tudo vai ficando, digamos, mais emocionante, mais desafiador =D.

Eu fiquei pensando em tentar criar um. Veio à minha mente a palavra パワハラ pawahara, do inglês power harrassment (“assédio moral”). Aí eu desenhei isto aqui:

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力Chikara é uma das palavras para “poder”, “força”, e 腹 hara é “barriga”. Fiquei pensando na expressão “ter o rei na barriga”, que temos em português, usada para se referir a alguém que se acha superior aos outros – algo que bem cabe a quem tem comportamento de assediador. Eu só coloquei o “poder” dentro da “barriga”. Viajei? (pergunta retórica… tenho medo do que vocês vão me responder, =P)

Que tal tentar? Compartilhe seu kanji com a gente!

よろしくお願いします!